temporal no céu da boca

“Temporal no Céu da Boca” é o disco de estréia da banda portoalegrense Subtropicais. Sim, estamos abaixo do trópico, mas precisa levar isto a sério? Os Subtropicais levam muito a sério. Desde 2000 na estrada, a banda faz música abaixo do trópico, mas para todas as latitudes do mundo. Neste disco, as músicas são um ode ao movimento tropicalista da década de 1960, porém com uma pitadinha de umidade, céu, sol, sul, terra e cor. Aqui tudo que se planta bem cresce e, Os Subtropicais, no seu amadurecimento precoce, vão conquistar os pratos de muitos roqueiros. Não é a toa que a qualidade musical está em primeiro plano neste primeiro disco. O baixista Brawl tem experiência vivida na cena roqueira gaúcha, fazendo parte de grandes bandas como Proveitosa Prática, Os Cozinheiros, Levitan & Os Tripulantes, entre outras. Além dele, a impecável produção de Marcelo Fruet, deixa claro que a banda tem uma influência determinista, afinal, Fruet convive com os caras desde guri. Destaque para as primeiras faixas “TV” e “São Nunca”, uma salada de groove, rock e psicodelia, que vão te fazer levantar da cadeira e perguntar: “Quando é o próximo show deles??”. Espero que seja em breve, pois escutar Os Subtropicais apenas em casa ou no mp3 player é pouco para umas pernas sedentas por embalos de sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado a noite. Agora, já é possível afirmar: existe sim movimento Subtropical! E é Gaúcho!
os festivais ainda fazem efeito?

O Festival do Rio encerrou no último dia 04, e resta a dúvida: até onde vai a produção latina? As tecnologias já provaram auxiliar os diretores e os criadores de arte, embora ainda haja certa resistência por parte de alguns saudosistas da escola fílmica. Mas, para que resistir, se as tecnologias estão nos ajudando a combater o velho stigma de que filme brasileiro (ou latino) é ruim? A idéia é ontroversa, divide opiniões e deixa o espectador em um dilema: final, tem filme bom no Brasil? O Festival de Gramado deste ano já havia revelado ao público nomes que talvez nunca aparecessem nos
cartazes locais, como César Troncoso de “El Baño del Papa”, que ganhou Kikito de melhor ator estrangeiro. Agora, esperamos que o Festival do Rio, e a Mostra internacional de São Paulo (que começa no próximo dia 18), ajudem a
fixar estes nomes, integrar os realizadores, aumentar a troca de experiências e tecnologias, e mude a perspectiva da indústria local, para que a esperança de se fazer um filme não siga eternamente o exemplo da história de “Saneamento Básico”, mais recente longa do gaúcho Jorge Furtado. Com cartaz assinado por Hector Babenco, a 31ª Mostra Internacional de São Paulo abre hoje com o filme “O Passado”, décimo longa de Babenco, estrelando Gael Garcia Bernal.
arco-íris sem cor

O dia 10 de Outubro de 2007 talvez entre para a História da Música como o dia em que mais se teclou a palavra “Radiohead” pela Internet. Não houve quem se livrasse: nem lastfm, nem blogspot, nem MSN, e muito menos orkut. As pessoas queriam ouvir o que a banda havia guardado de tão secreto nestes últimos anos, macabros para os fãs, que chegaram até a ouvir um anunciado fim das atividades, pois Thom Yorke estava cansado. Mas o Radiohead está de volta! In Rainbows é, com certeza, o álbum mais esperado do ano, e isto se confirmou na madrugada da última quarta-feira, quando milhares de fãs ficaram acordados, atualizando seus e-mails, na esperança de chegar logo o link para download. Isto
tudo soa estranho, visto que há pouco menos de 10 anos atrás, o disco mais esperado do ano era um ao vivo do Guns´n´Roses, e os fãs fizeram filas imensas na frente das lojas, esperando abrir para poder comprar o CD. E soa mais estranho ainda, quando lembramos que há pouco menos de 20 anos, outros fãs aguardavam ansiosamente para poder comprar o LP do Menudo. Mas onde estão as palavras comprar-disco, quando se trata do novo disco do Radiohead? Mais uma vez a banda mostra estar na vanguarda do indie, e lança In Rainbows somente pela Internet e sem a intervenção de gravadora nenhuma! É simples: você entra no site oficial da banda, diz quanto quer pagar pelas músicas (o valor pode
ser zero) e em seguida te mandam um e-mail com instruções para o download do disco. Aqui ninguém incentiva a pirataria, e como disse o próprio Thom Yorke a uma revista: “A nossa música é livre”. Quanto ao som, In Rainbows apresenta pouco de diferente dos álbuns anteriores, talvez batidas eletrônicas. Os violões estão tão em evidência quanto a voz, mas pra quem gosta de folk, prefira Bob Dylan. Algumas músicas como Bodysnatchers e Jigsaw Falling Into Place lembram, de longe, o segundo disco da banda, The Bends, de 1995. Ainda sim, fãs da banda, andam dizendo por aí que preferiam ficar com a lembrança do velho Radiohead. Corra, enquanto ainda tem o velho na loja para vender. E, se quiser experimentar In Rainbows, o download pode ser feito através dos sites: inrainbows.com ou younghotelfoxtrot.blogspot.com.
cinema realidade no rgs?

Coincidência ou não, o mundo dá voltas, e nem sempre à volta de Picadilly Circus. O pessoal lá da Casa de Cinema de Porto Alegre sabe explorar isto muito bem, e com seus quase 30 anos de existência somente agora está caindo nas graças dos cinéfilos brasileiros. E no embalo dos sucessos de “Houve uma vez dois Verões” e “O Homem que Copiava”, durante este ano foram lançados em DVD vários curtas e longas de produção da Casa, originalmente gravados em super-8 ou 16mm, desde 1980, alguns com direito a “estréia” no cinema, mesmo depois de tanto tempo. Mas a fórmula da Casa não muda, e prova disto é o recente lançamento em DVD do clássico “Deu Pra Ti Anos 70″, o primeiro longa-metragem brasileiro totalmente realizado em super-8. O filme foi rodado em Porto Alegre e Garopaba, e conta com diversas figuras (hoje ilustres, mas na época “alternativos”) da cena roqueira do Estado. Entre eles: Carlos Gerbase (ex-Replicantes), Nei Lisboa, Frank Jorge (Cascavelletes e Graforréia Xilarmônica), Wander Wildner e, pasmem, Werner Schunemann, na época um adolescente atuando de figurante! O filme é divertidíssimo, marcado pelo sotaque e as gírias da época da repressão. E, para os colorados de plantão, uma boa oportunidade para ver em vídeo uma pequena festa de torcedores pelas ruas da capital na década de 70. Quase 20 anos depois, a Casa reviveu “Deu Pra Ti..” ao fazer “Houve uma Vez..”, uma versão atual da fita, que conta com os mesmos atores supracitados, porém apenas compõem a trilha sonora. Para a história do Cinema Gaúcho, e para a própria História dos efeitos da ditadura no estado, “Deu Pra Ti..” é um prato cheio de memórias, críticas e imagens da época.
rock é rock mesmo, mas os meus cabelos…

Robert Plant está longe daquela velha forma on stage, quando os cabelos entravam na boca que cantava “what a hole lotta looove”, e a pélvis invejável aguçavam sentidos. Afinal, desde a morte do baterista John Bonham, Plant parou com longas turnês, engordou e mostrou ser um cara “zen” em seus posteriores discos solo e que a química ainda rola na recente parceria com o velho amigo Jimmy Page. Não é a toa que para o mês que vem, milhões de fãs disputam lugar para assistir ao único show do Led Zeppelin em quase 30 anos. E Plant não pára: agora ataca de Country! Está marcado para o dia 23 de Outubro o lançamento de Raising Sand, com Alison Krauss. A diva do bluegrass norte-americano está com medo de que o disco seja vítima de Duetos. Plant deixa claro que não se trata de duetos, e sim visitas. “Quando Alison me contestava, eu argumentava e assim crescemos” diz. Raising Sand foi produzido por T-Bone Burnett, que enviou as músicas separadamente para que os dois fizessem suas interpretações. A escolha das músicas foi de modo que cada cantor se aventurasse além dos estilos que se sentem confortáveis. “Robert sempre ouviu Blues do Delta do Mississipi e Alison é muito Apalacheana. Então coube a mim dar a ele o Country e a ela o Blues. Ele nunca tinha se aproximado tanto do Country, e agora está cantando Doc Watson!” completa Burnett. Além de Doc Watson, o dueto, digo, os dois cantores interpretam músicas de Tom Waits, Everly Brothers, entre outros.
impressões de um novo festival

césar troncoso em “el baño del papa”
A chuva e a serração permanente não tiraram o brilho do Festival de Gramado. Pelo contrário, parece que assim as pessoas estavam mais próximas, e ficou fácil se esbarrar em uma estrela do cinema.
A primeira noite que assisti foi a de quinta-feira, 16. A começar pela Mostra Gaúcha de Curtas, A Peste da Janice, mereceu os três prêmios que levou (Fotografia, Montagem e Direção). O filme de 15 minutos é triste, nostálgico e mostra como ainda é possível fazer Cinema em pouco tempo, e com baixo orçamento. Porém, quem ganhou mais prêmios foi Um Aceno na Garoa” (Ator, Atriz, Música – Geraldo Flach e Direção de Arte). O prêmio de melhor filme ficou com Rolex de Ouro, de Beto Rodrigues, que também ganhou o prêmio duplo de Melhor Direção.
Um destaque na minha opinião foi Overdose Digital, que com um péssimo roteiro, exagera (no bom sentido) nas técnicas de vídeo digital, utilizando até quatro planos na mesma cena.
Da mostra competitiva de longas, só consegui assistir a El Baño del Papa e Otávio e as Letras. El Baño segue a mesma linha de Anjos do Sol e Filhas do Vento, e acho que depois de Noite de São João é o primeiro filme apresentado no festival com cenário 100% Pampa! Que Pampa é essa?
El Baño del Papa se passa em Melo, uma cidadezinha uruguaia a 60 quilômetros de Aceguá-RS. Beto é um pai de família que ganha a vida trazendo muambas da fronteira, e lida diariamente com o enfrentamento com a polícia de fronteira, sendo por vezes humilhado e tomadas suas encomendas. Mas isso não o desanima de dois sonhos: primeiro guardar dinheiro para a filha Silvia poder estudar Jornalismo em Montevideo, e o outro surge com a visita de João Paulo II ao pequeno vilarejo. A vinda do papa traz esperanças econômicas aos habitantes, que chegam a pedir empréstimo ao banco a fim de montar barracas e vender comida aos esperados 40 mil turistas brasileiros, que tanto a mídia evocou. Mas Beto tem outra idéia: montar um pequeno banheiro e oferecer “serviços higiênicos” aos turistas. E é em busca do sonho de construir este banheiro que a trama se desenrola, de forma muito bem montada, e mostrando imagens do nosso Pampa que dificilmente algum fotógrafo amador conseguiria adquirir. O que mais chama a atenção neste filme, para nós gaúchos, é ver um pampa castelhano, que desconhecemos, ou que achamos habitual, mas ao ouvir a língua vizinha, nos remete ao lugar estranho. Mas estão lá o chimarrão, o chouriço, Aceguá, Jaguarão, o céu fincado no chão. Mas ainda sim, é outro país.
Fronteira lingüística? É nosso Pampa que ficou para trás!
foto: thiago piccoli
O genial Eduardo Coutinho
Coutinho é calmo, é divertido. Um dia após a avant-première de Jogo de Cena, Eduardo Coutinho sentou-se para falar. Em um bate-papo aberto à jornalistas contou um pouco da história de fazer o novo filme, dos bastidores e causos.
As primeiras perguntas foram relacionadas ao gênero do filme, ora ficção, ora documentário. Coutinho responde que “ficção é o que me dizem que é, documentário foi o que eu fiz.” A estranheza parte devido à atuação de grandes atrizes, como Marília Pêra e Fernanda Torres.
Quem está acostumado com os filmes dele, sabe que Coutinho captura histórias de brasileiros anônimos. “São instantes da vida cotidiana, e é preciso acreditar no que a pessoa falou naquele momento”, reflete. Então elas não estavam atuando? “Não! Tanto que se você prestar atenção, Fernandinha se chama por Nandinha, seu apelido de infância. A Marília dá alguns deslizes de costume, e em algumas vezes ela pede para cortar a filmagem, e repetir a história. Isso é uma ótima idéia para filme: uma pessoa contando várias vezes a mesma história, parando e recontando. Nunca vai ser a mesma história. Mas Marília é Marília. Não está atuando, nem fingindo ser ninguém. Eu costumo dizer que utilizo a técnica da não-direção. Me deixo levar.”
Em relação ao espaço de seus filmes, o documentarista diz que procura geralmente lugares e pessoas que ele não conhece. Para Jogo de Cena, a metodologia foi diferente: “há espaços armados, há espaços naturais. Talvez por isso insistam tanto na ficção. Mas veja bem, Master (Edifício Master) não deixa de ter cenários armados. Por exemplo: eu escolhia onde as pessoas sentavam. Não daria para puxar as histórias se a gente não armasse um circo “luz-câmera-ação”. Master é ficção? Em relação a Santa Marta – Duas Semanas no Morro, a única verdade é que eu passei duas semanas no morro. O resto é ficção? Não, são histórias contadas. A mesma coisa com Master: a única verdade é que passamos um mês naquele prédio, gravando histórias. Cabe ao público julgar se as histórias são ficção ou não. É um outro espaço que vai além dos limites do apartamento. Mas eu não voltaria ao Santa Marta para fazer um novo filme, do tipo ‘20 anos depois’. Eu sei que a situação social está a mesma.”
Novos projetos? “Eu não posso parar de fazer filmes, é o que me sustenta.”
Bate-papo com Beto Strada*
Compositor de mais de 40 trilhas sonoras para cinema, Beto Strada nasceu em São Luís do Maranhão, e hoje vive em São Paulo. Trabalhando com Jean Garret, quando ganhou seu primeiro prêmio, o da Associação Paulista de Críticos de Arte, segundo ele um prêmio “complicado”, surgiu a motivação em criar o curso “Som em Cena”. Não havia ninguém no Brasil que ensinasse. Ele brinca que os gaúchos são privilegiados, pois além dele, só em Buenos Aires dão esse curso na América Latina.
O curso consiste em formar artistas de Foley, técnica utilizada por estúdios americanos para recriar sons e efeitos no filme. A técnica é simples, segundo ele. Em cena, prioriza-se a gravação da narrativa, e em estudo se recria os outros planos sonoros, a fim de facilitar na hora da dublagem. Seu grande professor foi Geraldo José, que montou o primeiro estúdio de Foley na TV Globo.
Perguntado sobre os filmes de animação, foi enfático em citar a Pixar como o estúdio perfeito, mas não deixa de dar crédito também aos estúdios Disney.
- Qual desenho de televisão tem uma trilha perfeita?
- Zé Colméia e Tom & Jerry.
- E o que tu achas do videoclipe?
- O videoclipe é o contrário do som em cinema, pois as imagens são criadas de acordo com a música.
- Como jurado do Gramado Cine Video, o que achaste dos videoclipes concorrentes?
- Tinha vídeos muito bons. Mas outro jurado, o psicanalista Jairo Bauer, disse na ocasião que a MTV seleciona os vídeos de acordo com as imagens. O que tem imagem melhor, entra na programação. Eu discordei, argumentando: como se vai fazer um videoclipe em que não haja sincronia entre a história da música e a história do vídeo? O vídeo vencedor tem isso, embora outros jurados fossem contra.
* Ministrante da oficina O Som em Cena
eu, você e todos nós

Vamos fazer um acordo? Quando um filme de amor nos tocar além do coração, vamos pedir um pôster dele pra sempre? E se ele falar a verdade que nunca aceitamos ouvir, vamos olhar para a pessoa que mais amamos e dizer que sempre amaremos ela? Pode ser um filho, um irmão, esposa, avô, quem quer que seja. É claro que não precisamos de um mero filme para tomar certas atitudes, mas às vezes eles são ótimos pontos de partida, e por que não dizer, fábrica de idéias. A norte-americana Miranda July sempre foi uma artista multimídia, promovendo manifestações que estão muito além do que vemos aqui no Brasil, e divulgando sempre a máxima: o Amor. “Eu, Você e Todos Nós” é o primeiro longa metragem de Miranda July, e é daqueles filmes que você olha a capa e acha que vai ser mais um previsível e com final feliz. Com uma câmera de vídeo amadora, Christine Jesperson (July) cria histórias de amor focando alguma fotografia de casais anônimos. Histórias estas, que talvez seriam as que ela gostaria de viver, porém repassa seu sentimento à uma simples imagem. Uma simples imagem, mas que para ela pode se tornar um sonho, ou uma vida. Ao conhecer Richard (John Hawkes), ela passa a reconhecer o amor-próprio, do jeito dela, divertido e cativante. O filme é marcado pela expressão, e muitas cenas são conduzidas apenas pelos olhares. É o jeito Miranda de fazer arte: tímida, solitária e observadora. É um selo do mundo moderno. Há cenas muito marcantes, e que com certeza deixarão o espectador intrigado por meses, como a que o menino Robby (Brandon Rafcliff) descobre de onde vinha o barulho misterioso que ninguém dava atenção. E ele mesmo protagoniza um dos melhores momentos do Cinema atual: a cena do chat erótico. No site de Miranda July, há diversos links para vídeos que ela realiza frequentemente, e que para ela própria não tem interesse comercial. Então, acesse o site, emocione-se e deixe Miranda entrar com os dois pés (Me & You) na sua vida.